Poesia completa
• De João Cabral de Melo Neto
• Organização de Antonio Carlos Secchin
• Editora Alfaguara
• 896 páginas
• R$ 154,90
Trecho:
Plateia — Eu queria insistir na questão do fazer poético. Alguns autores falam que têm necessidade de escrever. Quando você escreveu Morte e vida severina, por exemplo, passou por aí a compulsão de escrever?
João Cabral — Não, eu não sou levado pela necessidade. Eu poderia perfeitamente ficar sem escrever. Aliás, no conjunto da minha obra, é uma constante que eu considere aquele livro inútil. Acho que a gente escreve como um arquiteto constrói um edifício. A escrita é um edifício. Um quadro, a pessoa não tem necessidade assim de pintar um quadro como eu imagino que um compositor tenha necessidade de compor uma melodia. O quadro é uma coisa mais intelectual, é mais objeto da razão e da vontade do que propriamente de um impulso interior. Quanto a Morte e vida severina, devo dar uma explicação. Eu era muito ligado ao Aníbal Machado, um escritor de Minas, pai da Maria Clara Machado, que tem essa importância no teatro brasileiro que todos vocês conhecem. A Maria Clara era muito minha amiga e me pediu um auto de Natal. Eu o escrevi para o Tablado. E esse auto de Natal foi o Morte e vida severina. Ou seja, foi uma obra escrita de encomenda.
Três poemas inéditos de João Cabral
A droga
Quando se há de desenvolver a droga
que feche o relógio, como porta?
Que nunca abra a porta desse pátio
onde se escuta o trem do horário?
Mas que abra os pátios de estar,
as praças sem correntes de ar,
Onde num trem que não se sente
se vai no passado presente.
65 anos
O pulso não está mais fraco.
Martela como sempre, claro.
Mas decerto o poço ou cacimba
de onde bombeia para cima
o que pelas veias circula
(vida? Sangue?) o que quer que suba,
já não está como esteve, cheia:
já se deve ver o chão de areia.
Decerto não deve faltar muito
para que a bomba alcance o fundo,
soe o ralar erres de quando
já corre pouca água nos canos.
“Poucos anos
nos convivemos”
Poucos anos nos convivemos,
mas convivemos tantos dias
que até mesmo quando
olhando-me é a ti que te via.
Eu te encontrava em qualquer coisa;
será por que te procurava?
Não sei, mais coisa tinha,
vinha marcado de tua marca.
Certo dia, não cara a cara.
Cruzei-te, era o outro lado da rua,
em estado de multidão,
ter na tua, eu sempre na tua.
Era meio-dia e ao meio-dia
toda lembrança se esvazia
do que haja nele de concreto:
Mas a tua era carne viva.
Nunca te vira tão carnal,
nem em teu corpo essa alegria
de carne, a carne alegre,
que à alma alegre se transferia.
Por que então não te fiz parar
no meio-dia morno e lento?
Os sins e nãos, os prós e contras
contabilizaram-se: em tempo.
É difícil de re-emendar
esse fio mil-fios, o tempo,
se emendamos duzentos deles
teremos ainda oitocentos,
E muito embora tantos fios
sejam de um algodão aparente,
a distância de uns poucos anos
deu-lhes maduro diferente.
Fonte: Estado de Minas (04.12.2020)