
Governo do Estado e Prefeitura do Recife inauguram o Memorial da Democracia de Pernambuco
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O Governo de Pernambuco e a Prefeitura do Recife inauguram nesta quinta-feira (29), às 17h, o novo marco da memória das lutas pela liberdade e justiça social no Estado. Ocupando os 600 metros quadrados do chalé do Sítio da Trindade, em Casa Amarela, o Memorial da Democracia de Pernambuco Fernando de Vasconcelos Coelho reunirá todo o acervo documental produzido pela Comissão da Memória e Verdade Dom Helder Camara - criada em 2012 pelo governador Eduardo Campos sendo a primeira a ser instalada em nível estadual no país - além de destacar personagens e fatos históricos que marcam a nossa história contra o autoritarismo. O evento, que será aberto ao público, contará com a presença do governador Paulo Câmara, do prefeito do Recife, João Campos, de ex-presos políticos e familiares, autoridades políticas, religiosas e do movimento social.
O Memorial da Democracia de Pernambuco nasceu com a lei que instituiu a Comissão Estadual da Memória e Verdade Dom Helder Câmara - uma das mais profícuas do Brasil, que se manteve ativa por cinco anos e que, em seu relatório final, também recomendou a implantação do memorial. A implantação ocorreu como resultado do Grupo de Trabalho “Memorial da Democracia de Pernambuco”, colegiado criado em 2021, coordenado pela vice-governadora Luciana Campos, e integrado por secretarias e órgãos estaduais, entre eles, a Companhia Editora de Pernambuco.
A escolha do casarão do Sítio da Trindade - equipamento da Prefeitura do Recife - é simbólica e ressalta a importância histórica. Tombado por sua importância cultural, o local já acolheu o Forte Arraial do Bom Jesus, no século XVII, foco de resistência contra os invasores holandeses. Seu chalé, entre 1960 a 1964, foi a sede do Movimento de Cultura Popular (MCP), que reuniu nomes como Paulo Freire, Abelardo da Hora e Francisco Brennand e teve as atividades encerradas após ser invadido por tanques na ditadura militar.
Construído com recursos do tesouro estadual, tendo a parceria da Prefeitura do Recife que cedeu o imóvel, o Memorial da Democracia tem curadoria assinada pela socióloga Isa Grinspum Ferraz, também responsável por projetos fundamentais, como a curadoria do Museu Cais do Sertão, no Recife (PE), e a coordenação de conteúdos e roteiros do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo (SP). Sobrinha do guerrilheiro Carlos Marighella, assassinado em 1969 por agentes do regime militar, Isa montou um roteiro para o Memorial da Democracia de Pernambuco em que o visitante conhece personagens importantes para a criação da ideia de um estado pernambucano, passando pelas lutas libertárias e contra a escravidão, a história e o propósito do MCP e enfrentamento ao regime de exceção implantado pelos militares em 1964.
Tem como objetivo ser um espaço de visitação pública, de pesquisas e estudos, contribuindo para a formação cidadã e fortalecimento da democracia. O conteúdo histórico do memorial foi pensado para 7 das 10 salas do casarão. Dedicada à memória dos que combateram a ditadura militar, aos que foram mortos ou desapareceram durante o regime de exceção (1964-1985), a sala 5 é considerada o ponto alto do equipamento. Ali, poderão ser vistas imagens de flagrantes de repressão, de manifestações de ruas e referências aos 51 mortos e desaparecidos políticos no território de Pernambuco ou de pernambucanos vítimas do regime militar fora do Estado.
Além das salas com exposição, o visitante poderá acessar em outros cômodos versões digitais do relatório final da CEMVDHC, com mais de 800 páginas, e aos mais de 70 mil documentos coletados, entre prontuários, certidões de óbito, entrevistas e depoimentos. Também está prevista uma biblioteca oferecendo títulos que convergem para a temática proposta pelo Memorial, sala para palestras, debates e para exibição de filmes. Uma das intervenções mais significativas do projeto de curadoria está na na instalação de uma réplica da escultura Torre Cinética e de Iluminação, de autoria de Abelardo da Hora, com oito metros de altura. Criada originalmente em 1961 e instalada na Praça da Torre, a obra foi destruída em 1964 pelo Exército por ter sido considerada subversiva.
Para Isa Grinspum Ferraz, assinar o projeto do memorial foi um presente, tanto por sua ligação com o Recife, cidade onde nasceu, quanto pela história familiar. “Sou sobrinha de Marighella, morto pela ditadura em uma rua de São Paulo, e o meu pai foi preso e tortura na época. A história da minha família por um país justo e igualitário me dá orgulho. Ao meu modo, tento lutar, com os meus trabalhos em museus e documentários, por estas causas”. O grande desafio, segundo ela, foi contar muitos dos fatos importantes da história pernambucana em um espaço físico relativamente pequeno. “Mas um museu, um memorial, não é uma enciclopédia. A função dele é chamar a atenção e levar à reflexão sobre determinadas questões. Creio que conseguimos, com um trabalho conjunto, fazer isso”, completou.
Como integrante do GT “Memorial da Democracia de Pernambuco”, a Companhia Editora de Pernambuco esteve envolvida no projeto de forma intensa em diversas etapas. Além de publicar o relatório final da Comissão da Verdade, apresentado em 2017 -, e sua digitalização, cujo conteúdo está disponível para consultas no site acervocepe.com.br, a Cepe ficou responsável pela execução da obra do memorial. “A Cepe sempre presente. Investiu na recuperação do casarão do Sítio da Trindade, na organização do conteúdo do Memorial e está publicando livros sobre sobre personagens que participaram do processo de construção da democracia de Pernambuco. Vale destacar que esse não é o Memorial da repressão, mas sim uma homenagem às pessoas que lutaram pela democracia. Não há sentimento de revanchismo, pelo contrário. Há uma esperança de que a democracia seja sempre defendida e lembrada. As pessoas que se empenharam nesta luta merecem toda a nossa memória e respeito”, destacou o presidente da Cepe, Ricardo Leitão.
Fernando de Vasconcelos Coelho
O nome do Memorial da Democracia de Pernambuco é uma homenagem ao coordenador geral da CEMVDHC, Fernando de Vasconcelos Coelho (1932-2019). Advogado, Fernando se destacou nas ações de combate ao regime militar (1964-1985).
Serviço:
Inauguração do Memorial da Democracia de Pernambuco Fernando de Vasconcelos Coelho
Quando: 29 de dezembro
Horário: 17h
Onde: Sítio da Trindade
Endereço: Estrada do Arraial - Casa Amarela
Entrada franca