
Livro da Cepe Editora aborda a vida cotidiana durante o domínio holandês na perspectiva dos portugueses
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A vida cotidiana durante a guerra dos flamengos no Brasil e em Angola, no século 17, é revelada pelo livro Do conflito e do convívio: as ocupações holandesas no Brasil e em Angola sob a perspectiva lusa (1624–1680), novo título da Cepe Editora, que ganha evento de lançamento no dia 16 de abril, a partir das 19h30, na Academia Pernambucana de Letras (APL). Na obra, o historiador Gabriel Ferreira Gurian se vale de vasta documentação sobre a percepção portuguesa dos neerlandeses para mostrar a existência de relações de trocas, diplomacia e amizade entre prováveis inimigos. E essa perspectiva abordada pelo autor é o que revela o diferencial em relação à bibliografia existente sobre o período.
Do conflito e do convívio tem 432 páginas e está dividido em duas partes. É na segunda metade que o autor aborda a coexistência e a amizade entre luso-brasileiros e neerlandeses e entre angolanos e neerlandeses, durante a permanência dos flamengos no Nordeste brasileiro, de 1624 a 1654, e no país do Sul da África, de 1641 a 1648.
“Gabriel Gurian fez um caminho majoritariamente descartado pelos historiadores”, observa no prefácio Bruno Miranda, professor do curso de História na Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). “Ele foi além e ampliou os espaços nos quais se desenrolavam essas relações, trazendo Angola para o debate, que também foi palco das disputas imperiais - e atlânticas - entre portugueses e neerlandeses.” Na primeira parte do livro o autor explora os panoramas materiais do conflito.
Para narrar essa história, Gabriel Ferreira Gurian fez pesquisas em textos diversos. O escritor cita, entre outros, “documentação administrativa, correspondência de agentes de governo, missivas de religiosos, cartas ânuas jesuíticas, manifestos e panfletos circulados pelas populações coloniais, grandes narrativas sobre a guerra no Brasil e na África Ocidental... Uma miscelânea bem representativa da produção escrita pelos portugueses na Época Moderna.”
As relações de amizade com os neerlandeses se estabeleceram em função da vida em cada localidade. “As organizações cotidianas diferentes favoreciam ou impediam mais esses contatos, colaborações e até o estabelecimento de vínculos afetivos e a celebração de matrimônios”, declara o historiador. Ele centrou a pesquisa em “textos lusófonos, a partir de uma indagação sobre a percepção dos portugueses e luso-brasileiros, sobretudo aqueles radicados no além-mar, sobre os tais ‘hereges’ setentrionais, que assediaram Bahia, Pernambuco e Angola.”
Um dos exemplos citados no livro, no lado brasileiro, envolve um dos heróis da Restauração Pernambucana. “João Fernandes Vieira, em seu testamento de 1674, declara ter tido, no tempo dos flamengos, ‘por remir minha vexação e viver mais seguro entre eles, [...] apertada amizade com Jacob Stachouwer, homem principal da nação flamenga, com diferença nos costumes’, isto é, distinto e de melhor índole do que seus demais compatriotas”, relata Gabriel Gurian em trecho da obra.
“Na costa africana, a presença anterior a 1641 de indivíduos como Baltazar Van Dum e Jacinto da Câmara, assim como a aderência e permanência de Paulo Escorel e Cornélio Neles, inseridos nas comunidades portuguesas por meio do casamento e dos negócios, além de dispersos em diferentes núcleos de povoamento, permitem a suposição de que tenham, de alguma maneira, desenvolvido relações de amizade em suas respectivas comunidades”, escreve, na publicação.
O livro Do conflito e do convívio: as ocupações holandesas no Brasil e em Angola sob a perspectiva lusa (1624–1680) é fruto da tese de doutorado de Gabriel Gurian, orientada pelo professor Jean Marcel Carvalho França. Ele fez a defesa do trabalho em julho de 2022, no Programa de Pós-Graduação em História da Unesp, na cidade de Franca (SP). “O livro de Gabriel Gurian é mais uma contribuição importante da Cepe para a história do período holandês, agora em um consistente estudo comparativo com a ocupação lusa e flamenca em Angola, com um texto que dialoga tanto com especialistas como com o público geral”, destaca o jornalista e editor da Cepe, Diogo Guedes.
Sobre o autor - Nascido e residente em Batatais, no interior de São Paulo, Gabriel Ferreira Gurian é doutor em História pela Universidade Estadual Paulista (Unesp/Campus de Franca). Pós-doutorando no Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP), associate fellow da Royal Historical Society (RHS), pesquisador dos grupos Meio Ambiente, Saúde e Alimentação na História (Mesa) e Leviatã e o Cativeiro, além de membro do coletivo Comer História. É autor, entre outros estudos, de Bebidas e bebedores no Brasil Holandês (1624-1654), e editor, com Ana Carolina Viotti, do Tratado sobre medicina que fez o Doutor Zacuto para seu filho levar consigo quando se foi para o Brasil.
Entrevista com o autor:
Pergunta - O tempo dos flamengos no Brasil é um tema explorado por diversos autores. O que o senhor destaca como novidade sobre o período holandês, no seu livro?
Gabriel Gurian - Creio ter me proposto a praticar uma história predominantemente interessada na vida cotidiana, ponto presente em outros trabalhos meus, cujo enfoque são as bebidas alcoólicas, as práticas de consumo e a moralidade do beber a partir de pontos de vista distintos. No caso de Do conflito e do convívio, essa vida cotidiana é, sim, permeada pela guerra, pelas organizações administrativas, pelas costuras diplomáticas realizadas em instâncias superiores. Mas, ainda assim, a obra procura retornar sempre ao sujeito ordinário, que vivenciou o dia a dia do Recife, de Salvador, de Luanda… E que, assim, também vivenciou a presença do "outro", com quem disputou e conviveu, de modos diversificados, e sobre quem escreveu ou manifestou opinião captada em documentos produzidos por terceiros. Daí se vê uma diversidade de relações e opiniões que, creio eu, o olhar "geral", mais tradicional na historiografia – embora a bibliografia sobre o Brasil neerlandês tenha excelentes trabalhos sobre cotidiano e cultura material, e que se destacam nesse rol específico, o que nem sempre pode ser dito sobre outros recortes consagrados da historiografia brasileira –, capta com menor precisão.
Pergunta - A presença neerlandesa em Angola é um tema pouco explorado?
Gabriel Gurian - A presença neerlandesa em Angola não é pouco explorada per se, só é pouco articulada aos desdobramentos em outras partes do Atlântico quando se fala em assuntos diferentes que não a escravidão. É claro que o lançar-se à tomada de Luanda por parte da Companhia das Índias Ocidentais se deu na busca pelo controle de um importante enclave escravista, sobretudo à luz das operações no Brasil. Mas os desdobramentos dessa ocupação, quão disruptiva foi para as relações previamente estabelecidas entre portugueses, lideranças do Ndongo, do Congo e de Matamba, que impactos teve na população portuguesa, quão próximos ou afastados os holandeses ficaram desses adversários europeus e como desenharam suas próprias alianças com lideranças locais, enfim. Há muito o que ser dito, autonomamente, sobre esse lado da história, e também acredito que muito se enriquece um lado e outro desses episódios se observados de modo entrelaçado, como procurei fazer. No fim, tratei Pernambuco, Bahia e Angola como diferentes palcos de uma mesma dinâmica, cujos desdobramentos no conflito e no convívio entre portugueses e holandeses deveriam ser apreciados sob a mesma lupa.
Pergunta - Quanto tempo durou sua pesquisa? Encontrou documentos inéditos?
Gabriel Gurian - Foi uma pesquisa que durou quatro anos, ao longo do meu doutoramento todo. Não creio ter encontrado documentos inéditos, a maior parte da investigação foi conduzida durante a pandemia de covid-19, e, por isso, fui impossibilitado de realizar um estágio no exterior – mesmo que aprovado pra isso – e, consequentemente, visitar arquivos porventura úteis, que levassem a uma "descoberta" nesse sentido. Mesmo assim, acredito que meu tratamento de fontes já consagradas, pensando no Brasil holandês e na ocupação neerlandesa de Angola, tenha seus méritos na abertura de novos caminhos, na proposição de novas indagações.
Serviço
Evento de lançamento do livro Do conflito e do convívio: as ocupações holandesas no Brasil e em Angola sob a perspectiva lusa (1624–1680)
Quando: 16.04, quinta-feira
Hora: 19h30
Onde: Academia Pernambucana de Letras (APL)
Endereço: Avenida Rui Barbosa, 1596, Graças
*Evento aberto ao público
Preço do livro: R$ 75,00 (livro físico)