
O luto e a ressignificação da vida em lançamento infantil da Cepe Editora
Compartilhe esse post
Cristina Ferreira chegou àquela fase da vida em que domina a sua própria história, seja ela a real ou a inventada. Para a escritora, foi um processo libertador e terapêutico se entregar à trama do livro O Caleidoscópio de Tininha, lançamento da Cepe Editora. A publicação, voltada para o público infantil, ganha mais delicadeza com as ilustrações criadas por Vitor Bellicanta. Com aspectos inspirados na trajetória pessoal, acrescidos de elementos ficcionais, o título revela como uma garota e seus parentes lidaram com o luto e a reconfiguração das relações familiares.
A autora revive parte de sua infância na voz da personagem Tininha, uma menina de seis anos, que também traz seu apelido usado quando criança. Em comum, ambas perderam a mãe na mesma idade, após o parto do irmão caçula, e foram criadas pelos avós paternos. “O Caleidoscópio de Tininha é um livro sobre a vida, aquela que precisa ser vivida com tudo que faz parte dela: alegrias, dores, prazeres, perdas, nascimentos, mortes, doenças, alegrias, descobertas. E evidentemente que quem passou por uma situação semelhante vai se tocar de uma forma diferente de quem ainda não viveu isso”, destaca.
A história parte do hiato criado com a chegada daquele que seria um dia diferente para todos: a mãe seguindo para a maternidade enquanto Tininha aguardaria os pais, e o irmãozinho, na casa dos avós. No último encontro das duas, marcado pelo afeto, um presente especial dado à filha, agora alçada à condição de irmã mais velha: um caleidoscópio. Como uma espécie de “casa da memória da vida”, o brinquedo teria uma função especial reunindo, em cada pedacinho, tudo vivido por elas.
O não retorno da mãe para casa leva Tininha a uma jornada em busca de respostas, um mistério que tenta investigar a cada silêncio ou explicações pouco esclarecedoras por parte dos adultos. Mas, até que ponto camuflar uma situação pode ser pior para quem vive o luto? O livro busca, através do olhar da Tininha, mostrar como, muitas vezes, os adultos têm dificuldade de lidar com o seu próprio luto e falar disso com as crianças. “Antigamente, o tabu era falar do nascimento - daí a cegonha… Em tempos passados, as pessoas eram veladas em casa e as crianças viviam isso. Com o tempo, a morte virou um "tema difícil", coloca a autora.
Ela defende que é duro falar da perda de quem a gente ama, mas no caso da Tininha, não falar a verdade desde o início, só gerou ansiedade e dúvida. “A história busca esse diálogo: a verdade sempre deve ser dita, na forma que a criança consiga captar, de acordo com sua maturidade. Mais que falar da morte, a história quer celebrar a vida e as muitas formas de permanência de quem amamos junto a nós - mesmo à distância!”, argumenta Cristina.
“No caso das crianças, ler uma história como esta dará a elas repertório emocional – é como se elas pudessem ir se nutrindo de experiências que, no futuro, poderão ajudá-las a se relacionar com a morte, por exemplo”, defende Cristina Ferreira.
Paralelos - Uma sutileza do livro está relacionada à escolha das cores das ilustrações, assim como à posição dos desenhos, de modo invertido, como o reflexo de um espelho, numa referência ao caleidoscópio. “O texto faz um paralelo entre a vida e os reflexos de um caleidoscópio, de como imagens e lembranças podem ser vistas de diferentes ângulos. Eu me inspirei nessa característica, refletindo as imagens com pequenas alterações, o que propiciou uma composição gráfica que intriga e surpreende”, assegura Vitor Bellicanta.
A troca gradual da paleta de cores, conforme Tininha experimenta sentimentos como a saudade e a solidão, também compõe de forma sensível a narrativa visual. “Foi muito interessante trazer a emoção do luto através da dessaturação, criando imagens em preto e branco”, complementa o ilustrador.
Para a editora-assistente da Cepe, Gianni Gianni, O Caleidoscópio de Tininha mostra o quanto a literatura para as infâncias pode ser densa e complexa, sem, no entanto, perder certa sutileza. “De um lado, uma perda irreparável e dolorosa na vida de uma criança; do outro, a força do acolhimento e a importância do coletivo (família, vizinhos, educadores...) no cuidado dos pequenos”, destaca.
Sobre os autores:
Cristina Ferreira - Escritora, mediadora de leitura, contadora de histórias, Cristina Ferreira nasceu no Rio de Janeiro e atuou como professora por 38 anos. Especialista no Livro para a Infância pela Casa Tombada (SP), faz parte da Oficina Literária da Anna Claudia Ramos, desde 2021, quando passou também a escrever as suas histórias.
Vitor Bellicanta - Ilustrador, escritor, designer e agroecologista, tem formação em Design pela PUC-Rio, trabalhando com tecnologia, cinema e educação. Desde 2016, coordena o estúdio de design CASA LAVOR. Vencedor da primeira edição do prêmio Filex, semifinalista do Prêmio Jabuti e do Prêmio Literário Biblioteca Nacional 2025, com menções no Catálogo Ibero-americano de ilustração e na BRAW Amazing Bookshelf, da Feira do Livro Infantil e Juvenil de Bolonha.
Serviço:
Lançamento do livro O caleidoscópio de Tininha (Cepe Editora; 30 págs.)
Preço do livro: R$ 50,00 (impresso)